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- Meu amigo, vou ficar com aquele carro preto.
- Ótima escolha! O senhor vai querer o pacote básico ou o completo, com ar condicionado, vidros elétricos e aros de liga leve?
- Hmmm... Certamente consigo viver sem esses acessórios. Vou ficar com o básico!
Foi
nisso que transformamos o viver cristão. Resumimos a resposta ao
chamado de Jesus, o discipulado, a uma vida cristã medíocre. Em outras
palavras, é como se a igreja estivesse dando a opção da vida cristã sem o
discipulado de Jesus.
Imaginem
a situação: o novo crente chega ao pastor e relata seu desejo de
congregar em sua igreja. O pastor, mais do que depressa apresenta as
opções ao cidadão: “Muito bem meu jovem, você pode tornar-se um ‘membro’
da igreja. Neste caso, é interessante que você participe dos cultos de
domingo, engaje-se em algum ministério, e é claro, seja batizado. A
segunda opção, é um pouco mais complexa, é a opção do discipulado. Este
caminho é de fato mais complicado. Nele, é necessário que você renuncie a
si mesmo, arrependa-se dos seus maus caminhos, ou seja, abandone o
velho homem e seus velhos hábitos e entregue o controle, o senhorio da
sua vida a Jesus Cristo. Qual será a tua escolha meu jovem?”
Existe
cristianismo sem discipulado? Lembro-me de A. W. Tozer: “a salvação sem
obediência é algo desconhecido nas Escrituras Sagradas”¹. É a
verdadeira transformação da graça preciosa de Deus em graça barata, onde
a justificação dos nossos pecados é aceita de bom grado, porém sem a
decisão de mudança de vida, da mudança de caráter, da renuncia ao antigo
estilo de vida totalmente dominado pelo pecado. A graça barata, como
afirma Dietrich Bonhoeffer, “é a pregação do perdão sem o
arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a
Ceia do Senhor sem a confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão
pessoal. Graça barata é a graça sem o discipulado, a graça sem a cruz, a
graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado... é a justificação dos pecados e
não do pecador.”²
A
salvação pela graça, mediante a fé (Ef 2.8) vista de dessa forma,
isenta o individuo da consciência de pecados e da busca por santidade
(Hb 12.14). Qualquer resposta, que não a de confiar no perdão de pecados
e garantia de salvação seria acrescentar obras à salvação. “A vida pode
permanecer como era antes.” Esta é a graça barata.
Graça
preciosa é a graça que reconhece o alto preço pago por Cristo na cruz, a
graça que justifica o pecador, a graça que chama a uma transformação
radical, que chama a um relacionamento íntimo com Jesus, que chama ao
discipulado.
Ser cristão sem ser discípulo é impossível.
O
preço que pagamos pelo fato de ter a igreja omitido o discipulado e ter
dado a opção do cristianismo sem a mudança radical exigida por Cristo é
altíssimo. Como é possível explicar a total irrelevância da igreja
evangélica brasileira para a sociedade? Como explicar o número crescente
de evangélicos paralelo ao aumento da violência, da desordem e da
inversão de valores? Como explicar o fato de ser, muitas vezes (na
grande maioria das vezes, permita-me dizer), impossível distinguir um
crente de uma pessoa do mundo? As nossas igrejas estão repletas de meros
espectadores de cultos, de pessoas totalmente incapazes de louvar e
cultivar um coração grato, pois não têm a mínima consciência da obra
realizada por Cristo Jesus. Vão até a igreja buscando espetáculo,
entretenimento. Buscam a multiplicação dos pães, mas ao ouvir as
palavras de Jesus, respondem: duro é este discurso, quem o pode ouvir?
Procuram as bênçãos de Deus sem vínculo algum com o Deus das bênçãos e
sem pretensão alguma de “andar no Espírito e jamais satisfazer as
concupiscências da carne” (Gl 5.16). Esse é o preço que pagamos por
termos barateado a graça. Esse é o preço que pagamos pela falta do
discipulado.

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